Desarmamento (II)

Vou voltar ao assunto, agora para dizer qual é o meu voto no referendo. Não adianta, não vou dizer ainda; se quiserem saber logo vão ter que rolar a tela.

Eu usei armas de brinquedo na infância, mesmo assim eu sou a criatura dócil e fofa que muitos de vocês conhecem. Mas eu gostava mesmo era de acertar alvos imóveis: latas, ou mesmo as paredes. E gostava do som das espoletas. Apontar para passarinhos ou gente, de jeito nenhum.

Se eu trabalhasse em um cargo que me autorizasse a andar armado, abdicaria desse direito. Mas aceitaria fazer curso de tiro – não exatamente para aprender a usar a arma, mas para treinar disciplina, auto-controle, concentração. Com essas virtudes eu nem precisaria usar a arma depois, já que muita coisa pode ser resolvida sem ela.

Agora chega esta lei sobre o desarmamento, que estabelece um referendo no próximo dia 23. A pergunta: O comércio de armas de fogo e munições deve ser proibido no Brasil?

A lei já determina, há algum tempo, que as pessoas que tiverem uma arma em casa de forma irregular, entreguem a dita ao governo, em troca de sua destruição e de uma indenização. Isso é até bom, porque existem armas demais, nas mãos de gente que não sabe usar. Tem o casal de idosos (lembrem-se que a tendência da população brasileira é envelhecer), que tem uma garrucha; o homem morre e a mulher (que não sabe manusear a arma) fica com um problema nas mãos.

Por outro lado, quem mora em regiões distantes e precisa se defender de animais selvagens, ou de invasores de terras, tem o direito de se defender. Acho certo; o tiro nem precisa ser para matar, basta assustar. A lei não é nada clara, diz que a pessoa pode ter direito na qualidade de “caçador”.

A lei não diferencia direito os tipos de arma, de uso permitido, restrito ou proibido. No famigerado artigo que trata da proibição, esta vale para todo o território nacional. Ou seja, por causa da violência nas grandes cidades o sujeito que mora em fazenda e precisa de uma arma para se defender de uma onça vai acabar sendo devorado. E a burrice dos legisladores é mostrada no parágrafo que trata do método de consulta: “referendo popular”. Oras, na Constituição está escrito, como uma das formas de exercício da soberania popular, apenas “referendo”. Todo referendo é popular, portanto. O “referendo popular” representa um gasto no “erário público”.

Quem aprovou essa lei foi o Congresso Nacional. E quem estava lá na época e aprovou a lei? O Severino, o Roberto Jefferson, os deputados ganhadores de mensalão, o Bolsonaro, os deputados do PRONA de São Paulo eleitos com 5 votos, o Inocêncio Oliveira, os ACM (avô e neto), o Sarney, o Bispo Crivella, o Renan Calheiros… Ou seja, qualquer coisa que esse Congresso aprove é viciada, por melhores que sejam as intenções. E a intenção, nesse caso, não é boa, é desviar a atenção; tira-se o foco das verdadeiras causas da violência.

Os defensores do Sim mostram números. Fernanda Montenegro diz que o Brasil é o campeão mundial em mortes por arma de fogo. O senhor Ministro da Justiça diz que a campanha de recolhimento de armas (essa que, como eu disse em cima, tem sua utilidade) causou a diminuição no número de mortes. E ainda falam que armas são uma causa significativa de mortes e seqüelas em crianças.

Esquecem-se de que há ações em que a pessoa que usa uma arma em seu intento é bem sucedida e nem sempre tiros são disparados e a ação não resulta em morte. A Bia foi assaltada, à mão armada, levou uma tremenda coronhada mas não morreu. Minha irmã foi abordada por bandidos, que lhe levaram o carro, mas sobreviveu e contou a história. Isso não vira estatística para o Ministro ou para a bancada do Sim. E em cidades litorâneas como o Rio de Janeiro ainda acho ser mais provável uma criança morrer afogada na praia (ou no Piscinão de Ramos) do que baleada.

A galera do Não distorce os fatos em seu favor quase tanto quanto a do Sim. Até a revista tucana faz sua campanha. Não-jornalismo.

Por tudo isso o meu voto no referendo é: NULO.

De protesto. Se o voto não fosse obrigatório eu nem perderia meu tempo de atravessar a rua e votar.

E qual o número dentre os 8 possíveis eu vou apertar? O ZERO – a nota que o Congresso e o governo Lula merecem.

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