Desarmamento (III)

Não estou sozinho na minha posição. O André Kenji escreveu os sete motivos abaixo. Não concordo 100% com ele, mas o texto é ótimo.

Sete motivos para você votar nulo no dia do Referendo

A Veja publicou na sua capa um artigo falando sobre sete motivos para votar não. Eu dou sete motivos para você anular ou justificar seu voto, no movimento iniciado pelo Francisco.

1-) Ambos os lados abusam do drama, distorcem estatísticas, usam dados falsos e comparações simplistas: Há várias correntes pela internet com relação ao assunto. Alguns misturam dados relativos à armas de fogo ilegais, outros utilizam dados de díficil comprovação(Como uma diminuição no crime, sendo que, por exemplo, em São Paulo, já houve diversas denúncias de maquiagem de estatísticas), outros exageram no apelo emocional. Há correntes sugerindo inclusive que com o desarmamento uma pessoa não poderia pedir ajuda aos vizinhos caso fosse assaltada(O que. convenhamos, por si só, é rídiculo). Há várias frases simplórias para se proibir a venda de armas, como que armas matam pessoas(O que na grande maioria das vezes não ocorre, já que meros tiros ao alto podem assustar um criminoso).

Em suma, ambos os lados estão trabalhando de forma tendenciosa, com propagandas que tratam o eleitor como um idiota.

2-) A rigor, a questão tem menos importância do que parece. A maioria dos crimes ocorridos por armas de fogo são cometidos por armas ilegais, e não há uma cultura de armas por aqui. Ou seja, a lei é uma intrusão nos direitos individuais bem menor do que parece, no país em que a polícia mata tranquilamente trinta pessoas em Queimados, na Baixada Fluminense. Ou mesmo naquele em que você tem que dar o número de seu RG, seu nome, seu motivo de viagem e mais sei lá o quê toda vez que faz uma viagem inter-estadual de ônibus(Em suma, o estado sabe para aonde você viaja, em tese, o que eu acho tenebroso)..

Os clubes de tiro são coisa rara, a caça é proibida em quase todos os estados(Se eu não me engano, apenas Rio Grande do Sul foge da regra). Por aqui, aonde a quantidade de criminosos armados e organizados em grupos é maior que nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, a arma como fator de defesa diminui consideravelmente(Uma coisa é ter uma arma à mão para dar tiros ao alto para assustar gangues de jovens, outra é encarar uma invasão à sua casa com uma quadrilha inteira armada).

Por quê não discutir coisas como a descriminalização das drogas? Ou ao menos da pena para os aviões, aquelas pessoas que simplesmente carregam droga de um canto a outro a pedido de traficantes? Ou mesmo uma reforma no Estatuto da Criança e do Adolescente para permitir a prisão de adolescentes presos por homícidio? Ou ainda uma reforma no Código Penal?

3-) Ninguém falou ainda no desarmamento do aparato policial e ambos os lados querem uma polícia ainda mais armada: Certo, não nego a necessidade de um efetivo de elite, com armamento pesado, para ações como sequestros e rebeliões em presídio. Mas para ações de patrulha na rua e blitze, há necessidade de submetralhadoras como se vê com frequência na mão da Polícia Militar de São Paulo? Considerando que muitas vezes o armamento da polícia cai na mão dos criminosos, até que ponto essa questão do armamento da polícia deveria ser considerada?

4-) A campanha em si tem significado uma das maiores campanhas de apologia ao porte de armas de fogo da História Nacional: Até o momento, ninguém aqui no Brasil falava sobre armas de fogo. A campanha do governo conseguiu mobilizar uma legião de pessoas traduzindo uma farta literatura de textos pró-armas dos Estados Unidos, com uma gigantesca corrente de emails mostrando a vantagem do porte de armas. Pessoas que nunca tiveram armas podem, com o tempo, resolver comprar.

Ou seja, a rigor, ao invés da quantidade de armas em circulação diminuir, pode simplesmente aumentar. E sem um devido treinamento, via mercado negro.

5-) A campanha em si é ineficiente e cara: Curiosamente, a campanha não fez nenhum cartaz ou anúncio sobre os riscos inerentes ao porte de armas, mas as cidades foram entupidas de faixas e cartazes com frases bonitinhas falando sobre a paz(Aquele conceito que em teoria todo mundo gosta de defender, mas ataca na prática). Até agora, o que se conseguiu fazer foi o Poder Público gastar fortunas para comprar coleções encostadas na mão de colecionadores.

6-) Por mais ineficiente e intrusiva que a lei do desarmamento seja, os grandes inimigos dela são favoráveis a um Estado mais forte, com um poder ainda maior de policiamento sobre seus cidadãos. Se nos Estados Unidos boa parte dos defensores do porte de arma o fazem por considerarem que isso diminui a necessidade da polícia, aqui temos o contrário. O movimento pró-armas é umbilicalmente ligado ao movimento em favor de um poder ainda maior à polícia. Os mesmos que discursam no direito à armas fazem grandes odes à polícia, mesmo quando ela executa inocentes.

Cambuí

Uma vitória do não significaria um grande aumento de prestígio e poder político desse povo, o que significaria um aumento ainda maior em políticas policiais intrusivas e violentas(É só olhar na quantidade de inocentes mortos recentemente pela Polícia Militar de São Paulo, ou a quantidade de feridos por parte da mesma polícia em manifestações). Vejam o cartaz ao lado, em Cambuí, pequena cidade ao sul de Minas Gerais, para se ter idéia de como algo orweliano pode virar motivo de orgulho.

Em suma, para quem está preocupado com o desarmamento por achá-la uma intrusão nos direitos e liberdade individuais(como eu), uma vitória do “não” pode ser ainda mais tenebrosa nesse aspecto.

7-) Ser obrigado a votar é rídiculo por si só: Domingo geralmente é dia de descanso para a maioria das pessoas, e inclusive sagrado para muitos cristãos. O voto obrigatório é uma invasão desse dia, fazendo com que a pessoa seja obrigada a perder horas desse dia em alguma fila, para votar ou justificar o voto.

Além do mais, obriga à votar pessoas que não tem o menor conhecimento sobre o que vão votar. No caso do desarmamento, quase ninguém tem noção da lei em si, nem sabem os riscos e vantagens de se possuir uma arma em casa, o que leva o debate à discussões simplórias de “Respeita a Paz” ou “cidadãos de bem”.

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15 thoughts on “Desarmamento (III)

  1. Eu dou sete motivos para não ler as opiniões de ninguém e menos ainda as do Kenji e não falar para ninguém qual será a sua escolha. Eu não vou falar, nem para o André. Vou só votar contra a minha vontade (bem na época da Mostra de cinema caramba!) e é isso.

    PS.: eu li o título de vários posts sobre a escolha para votar, mas não parei para ler nenhum. Não quero ser convecida. Vou continuar com a minha primeira opção. 😉

  2. Anular o voto!!!!!!! Nunca!!!!!

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  13. Anular o voto!!!!!!! Nunca!!!!!

  14. Adorei o texto. Realmente. Ambos os lados estão sem noção. Voto obrigatório é coisa da ditadura. Deviam é usar o dinheiro em remédios, pagar professores e médicos, investiemtnos em tecnologia, qualquer coisa. Se era pra ter referendo que fosse sobre algo que desse resultado prático como legalização do aborto. Deviam é instalar câmeras nos carros de polícia pra evitar brutalidade e extorsão/abuso de autoridade.
    No mar de ferrenhos e equivocados defensores do sim e do nã, é bom ver que tem gente que percebe que alternativas dadas, geralmente são as piores. Se nos dão 2 alternativas ruins, nós devemos bolar outras 10 ou 100 ou 1000 melhores! E eu quero é que gastem menos em bobagem e gastem mais cuidando das crianças e dos pobres sem merenda escolar. A polícia devia usar mais spray de pimenta, bala de borracha, gás lacrimogênio, filmar os bandidos e fazer ações planejadas. Abraços! Policial é pra prender, não é pra matar. Abaixo toda tentativa futura de implantação de pena de morte futura! Deviam fazer o Maluf comer pimenta até devolver o que roubou!

  15. Neste referendo inédito me informei das mais variadas formas e sempre buscando saber o que estava atrás do sim e do não.Convesso que ditubiei entre o sim e o não mas buscava outra alternativa que a mídia televisiva não divulgou.Nunca votei em branco por não ser indiferente aos acontecimentos, prefiro o nulo para mostrar que o povo brasileiro não e tonto e esta se politizando.

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