PLURAIS

Caros cidadões:

Tenho subido os degrais da escada da vida com umas séries de dificuldades, por isso várias questães ficam martelando minha cabeça.

Uma das principals são as absurdas utilizaçãos errõnicas que fazem da nossa língua pátria na hora de usar os plurals.

São tantas equivocaçães que eu acho que deveria haver puniçãos para os infratores. Multas, advertências. Quero ver se assim esses inútils vão continuar cometendo infraçãos.

Os perfils dos transgressores das regras são sempres os mesmos: indivíduos de ambos os sexos, cors indefinidas, segundos grais incompletos, alturas variáveres entre um metro e meio e uns metros e oitentas.

Seriam as organizaçãos multinacionals as responsáveres por esses erros de utilizaçãos da língua brasileira? Não falo das bobagens escritas, mas da nossa fala cotidiana, dos nossos tropeços nos empregos orals do idioma. Noses, os brasileiros, samos obrigados a engolir goela abaixo umas séries de decisães que interessam a quem?

Qualqueres que sejam as respostas, a verdade é que são decisães difícils de serem assimiladas e precisa haver uma tomada de posiçãos. O governo precisa se mexerem. Temos que ser mais ágils. Só assim sairemos dessas vergonhosas situaçães de vermos o nosso Brasil sempre nas listas dos piores do mundo. São Péssimos desempenhos nas áreas das culturas, dos sociais e das educaçãos. Todo mundo sabe: quanto menas verbas, menores serãos os resultados.

Só tem um jeito de resolver issos: fazer reformas agráricas de verdade e dividir os latifúndios improdutivos entre os coitados das sems-terras. E ainda tem os sems-tetos, os sems-empregos e os sems-dinheiros, que samos a maioria de todos noses.

Comecei a fazer anotaçãos e encontrei mais de mils equívocos em apenas um pequeno universo lingüístico observado. Os principals erros encontrados sãos as concordâncias verbais e o emprego dos plurais.

Seriam os cidadães brasileiros incapazeres de aprender? Será que estamos precisando de atendimentos especiais? Seria o nosso lápi escolar feito de carbono radioativo, com efeitos colaterals? Não sei, não sei. Já estou desconfiando de tudo.

Nossos atletas estão agora se preparando para os jogos olímpicos. Deviam entãos também prepararem os discursos, pois sempre dizem besteira. Sejam quais sejam as falaçãos dos participantes, no fim todos querem mesmo é ganhar medalhas e troféis. Esse negócio de espírito esportivo é conversa pra boi dormir. Sempre hão segundas intençãos.

Combinei um encontro com meu advogado num desses bars que fica no topo de uns arranha-céis no centro da cidade. Cheguei atrasado, pois alguém havia furado os pneis do meu carro. Desconfio dos cãos de guarda do meu vizinho, uns animals terríveres. Pedimos dois pastels e duas Pepses e ficamos ali, nós os doises, discutindo o problema. Ele acha que eu estou tendo visãos. Que isso é culpa dos stresseres do dia a dia, típico de pessoas que vivem com os coraçãos disparados. Você também acha que isso não passa de alucinaçãos? Pois não sãos alucinaçães. São coisas reals.

Fiz questão de levar o assunto até o fim e resolvi entrar com dois processos judiciais. Um por perdas, outro por danos. No dia da audiência o juiz apontou para mim, com seus dedos cheios de anels. O juiz é um sujeito singular, só faia no plural. O plural majestático.

Pedi então a Sua Excelência que me explicasse as leies da língua pátria. Ele respondeu:

– Os plurais são fácils: uma xícara, duas xícaras. Um pir, dois pires. Um pão, dois pães. Uma mão, duas mães. Um mamão, dois mamães. Não tem erro. Os bons e os maus, os bens e os mais. E continuou: – Certos pôvos mais antigos têm línguas complicadas, como os alemões, os turquianos, os groenlândios, os coreanenses e os amsterdinos. Aqui no Brasil, se você abrir os ôlhos, a coisa é simple. Letra S no final de uma palavra significa que ela não está no singular. Como é o nosso caso. Nós nos chamamos Régis, somos um cara plural.

Não agüentei. Levantei e fui embora. Um Regi, dois Régis!?! Nessas ocasiãos, o melhor a fazer é ficar quieto e nos recolhermos às nossas insignificâncias. Depois dessa, decidi voltar a estudar o Portuguê. Ou será os Português?

(Retirado do livro “Tipo Assim”, de Kledir Ramil)

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