Uma história triste e verdadeira

Pela primeira (e talvez não única) vez, a categoria Retro traz um texto de outro blog. Foi escrito pela Elis Monteiro, que tentou estabelecer links entre a história de uma amiga de infância e aquela dublê de assassina e péssima atriz, a Suzane. O original está aqui.

Com vocês, Elis:

O assunto que dominou os noticiários da semana foi o assassinato brutal dos pais de Suzanne. Hediondo, baixo, nojento, não existem adjetivos suficientes para descrever o fato. Pois vou contar uma história de amor sem cobranças, sem mágoas e ressentimentos que nos fazem ver o quanto os laços de sangue são importantes na vida de todos nós.

Tenho uma amiga de infância, que cresceu comigo em Bom Jesus, que tem uma história de vida triste. Ninguém entenderia tudo o que ela fez se não fosse por essa simples palavra: amor. Ana Paula (é o nome verdadeiro) nasceu em Bom Jesus e, logo que saiu da maternidade, sua mãe, Vera, pegou a menina e a jogou na lata de lixo, na beira do rio Itabapoana. Na lata do lixo ela ficou por dois dias inteiros, sem que ninguém percebesse. Um dia um senhor passou pela rua e estranhou o choro que vinha do lixo. Pois lá encontrou Ana Paula, toda roída por ratos (as cicatrizes ela carrega até hoje e não se envergonha ao dizer que são de mordidas de rato).

Ana Paula cresceu, se tornou uma adolescente feliz, embora muito pobre. O senhor, que ela adotou como pai de verdade, não ganhava sequer um salário mínimo e a mãe adotiva, carinhosa e doce, tinha sérios problemas de saúde. A felicidade dela só não era completa porque sonhava todos os dias com o reencontro com a mãe de verdade. Sim, aquela que, numa atitude de desespero, jogou a própria filha numa lata de lixo!

Minha amiga só sabia da mãe que ela tinha ido morar em São Paulo. Pois bem. Ao completar 14 anos ela se mudou para sampa, com a roupa do corpo e apenas com o dinheiro da passagem de ônibus (de ida). Ao chegar na capital paulista foi procurar emprego em casas de família. A primeira porta na qual bateu se abriu para ela. Lá Ana Paula ficou por um bom tempo. Não com o propósito de fincar raízes, mas com a idéia fixa de encontrar a mãe e abraçá-la.

Nunca consegui entender essa fixação que Ana Paula tem pela mãe. Eu mesma disse várias vezes que ela devia esquecer uma mãe que cometeu ato tão abominável. Mas ela sempre declara (até hoje, com dois filhos e mulher crescida) que não importa, que o que interessa é o amor que ela sente por essa pessoa.

Minha amiga foi a programas de rádio, fez tudo que estava ao seu alcance para encontrar a mãe, mas nunca conseguiu. É triste quando ela conta que, todos os dias, olha para mulheres em todos os lugares com a esperança de que alguém a reconheça e a chame de… filha!

Agora, me digam: Suzanne matou os pais por dinheiro e também alega que eles a proibíam de se encontrar com o namorado (que, cá entre nós, nem pode ser chamado de ser humano). Falta de atenção? Problemas psicológicos? Não. O problema de Suzanne foi falta de…amor! Aquele que nos faz lembrar dos pais a cada tropeço, a cada resfriado, sempre que a voz do sangue fala mais alto.

(postado originalmente pela Elis em 15 de novembro de 2002)

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